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"Ditadura significa morte, tortura e desrespeito à Constituição"

  • Publicado: Quarta, 06 de Junho de 2018, 12h57
  • Última atualização em Quarta, 06 de Junho de 2018, 16h10

   Redação Observatório 3º Setor  –  

Alerta é do diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sottili

 

 

Por Caio Lencioni

Fotos, vídeos e relatos de quem viveu o período da Ditadura Militar no Brasil revelam um cenário que poucos gostariam de viver, com censores nas redações dos meios de comunicação, pessoas desaparecidas, suspensão de habeas corpus, torturas e mudanças constitucionais.

Mesmo com uma história marcada pela violência, a ditadura que o país enfrentou ganha contornos idealizados na mente de jovens que não viveram o período, mas apoiam a ideia de um novo regime militar. O historiador Leandro Karnal ironiza essa idealização da ditadura.

“Se for um jovem que apoia a volta da ditadura, me sinto no dever de explicar o que é o arbítrio, a cassação de direitos, o que foi um AI-5, a tortura de mulheres grávidas, o fim da liberdade de imprensa”, disse em uma edição do Jornal da Cultura de 2015.

Para Rogério Sottili, ex-secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo e atual diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, é necessária uma “intensificação na luta pelo direito à memória, verdade e justiça”. Ele completa ao dizer que os brasileiros não conhecem a história do país e que isso se reflete na educação e na cultura.

“Há uma desinformação desde a época do descobrimento. Foi promovido um genocídio indígena, tivemos três séculos de escravidão e, no entanto, o país nega a própria história de violência”.

Sottili diz que é necessário enfrentar isso “a partir do estudo e da promoção de justiça”. Ele também alega que a volta do regime seria uma “desobediência à Constituição”.

O diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog também levanta uma questão sobre a Lei de Anistia. “Na Argentina, os generais foram condenados à prisão perpétua pelos crimes que cometeram. No Brasil, eles são anistiados. Por isso precisamos promover uma reinterpretação dessa Lei”.

Redes sociais

A jornalista Renata Mieli explica que em momentos de crise, como o que estamos vivendo atualmente, as pessoas tendem a tomar posições extremas, e as redes sociais têm potencializado isso. “As redes sociais nos colocam em situações de conforto, em que só se mostra quem pensa igual a você. Na democracia não há conforto, é necessário o embate para a construção da síntese de produção de um consenso”.

Direitos Humanos e as lembranças da ditadura

De acordo com Sottili, na época da Ditadura Militar, a questão do direitos humanos no Brasil era associada mais a direitos políticos, como a anistia e a liberdade de expressão. Logo foi se estendendo o conceito por conta de uma mobilização da sociedade e das organizações de esquerda.

Sottili se lembra de um episódio que aconteceu no ano de 1978, quando estava atuando em uma peça de teatro. “A nossa peça sofreu uma grave censura em Belo Horizonte. Não era uma espécie de censura federal. Onde você fosse se apresentar, a polícia federal tinha que assistir à peça e então havia um ou mais cortes de cenas”.

O fato é que bem no episódio de Belo Horizonte, onde Rogério diz ter havido um número alto de cortes, a peça foi aplaudida por outros motivos. “Nós paramos antes da cena que censuraram e fizemos um discurso político. Foi legal porque o teatro estava lotado e todos se levantaram, aplaudiram e gritaram ‘abaixo a ditadura’”.

Já Renata lembra que tinha muito medo do período. Um pavor que aumentava quando a mãe resolvia escutar um certo disco com os amigos. “Ela tinha o disco do Geraldo Vandré. Quando ela colocava para escutar com as visitas, eu saía correndo para o quarto e rezava para ela não ser presa. Eu sabia que aquele disco era proibido”, lembra.

A volta da ditadura

Renata conta que, em uma de suas passagens pela Avenida Paulista, em São Paulo, presenciou um caminhão com faixas e pessoas pedindo a volta do regime militar.

“O caminhão estava andando em meio à avenida e você conseguia entender a expressão das pessoas que passavam pelo movimento. A maioria estava achando aquilo um absurdo”. Renata acredita que os pedidos para que a ditadura volte são feitos por uma minoria.

Rogério diz que os direitos à vida e à liberdade de expressão, dois conceitos presentes na Declaração Universal dos Direitos Humanos, são inegociáveis. “É inadmissível um movimento de direita pedir a volta da ditadura, pois a volta do regime significaria morte, tortura e desrespeito à Constituição”.

Fonte: Observatório 3º Setor, 05/06/2018
Disponível em: http://www.memoriasreveladas.gov.br/administrator/index.php?option=com_content&view=article&layout=edit 

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