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Maio de 1968 é tema de livros que relembram os tumultos daquele ano

  • Publicado: Terça, 29 de Maio de 2018, 14h38
  • Última atualização em Terça, 29 de Maio de 2018, 15h09

Romance, almanaque e relato pessoal revivem os acontecimentos que marcaram aquele maio de cinco décadas atrás

 

NM Nahima Maciel
postado em 28/05/2018 07:30 / atualizado em 28/05/2018 12:05

 

 Em Paris, maio de 1968 foi um mês agitado. (foto: Jacques Marie)

 

Foi com uma série de protestos e uma greve geral que maio de 1968 entrou para a história do século 20. Qualquer semelhança com os acontecimentos recentes no Brasil pode ser mera coincidência — as motivações que levaram estudantes e operários às mobilizações naquele ano estão a anos-luz das razões que paralisaram o país durante a semana —, mas é inevitável uma comparação entre os ares que levaram aos movimentos de 1968 e os de hoje. Ares que apontam em sentidos bastante contrários, como fica claro em livros recém-lançados e que celebram os 50 anos do episódio.

Os pesquisadores Regina Zappa e Ernesto Soto ficaram surpresos com a repercussão do relançamento de 1968: eles só queriam mudar o mundo. Publicado pela primeira vez em 2008 para comemorar os 40 anos do movimento, o livro ganhou reedição oportuna. “Essa reimpressão foi uma surpresa porque a repercussão atual tem sido maior do que quando a gente lançou o livro”, conta Soto. “Em 2008, as coisas estavam tranquilas e numa situação de estabilidade as pessoas não se interessam muito ou porque não tinham conhecimento do que aconteceu em 1968, ou porque não estavam mobilizadas. Agora, a gente está vivendo uma turbulência e uma volta ao conservadorismo em todo o mundo. Isso desperta um desejo de mudança e ninguém sabe como proceder”, acredita Regina.

Escrito em forma de almanaque, 1968: eles só queriam mudar o mundo é dividido em meses e, para cada um deles, os autores elencaram os principais acontecimentos no mundo em áreas que vão da política à cultura. Os protestos na França começaram com exigências dos estudantes por melhorias no setor educacional, no início de maio. O movimento tomou conta de Paris, primeiro com os estudantes, que também protestavam contra o governo autoritário do general Charles de Gaulle e contra a falta de liberdades pessoais, e depois com os operários, protagonistas de uma greve geral que mobilizou mais de 9 milhões de pessoas.

O conflito de gerações tomou enormes proporções na França, mas não foi apenas por lá. Cada canto do mundo teve seu 1968 turbulento. Na Tchecoslováquia, a Primavera de Praga, iniciada em janeiro, reunia jovens que queriam a volta da democracia usurpada pelo regime comunista. Na China, a Revolução Cultural de Mao Tsé Tung chegava ao auge com a perseguição de intelectuais e artistas, e os americanos começavam a se dar conta de que a Guerra do Vietnã era um grande poço sem fundo. Naquele ano, os Estados Unidos viram o assassinato de Martin Luther King e de Bob Kennedy, então senador por Nova York, que defendiam o fim da guerra. A luta pelos direitos civis perdia um líder importante.

 

Choque 

O Brasil sentiu impacto maior no final de 1968, com a decretação do AI5 em 13 de dezembro, depois de uma década que viu surgir a Tropicália, o Cinema Novo e uma das produções mais engajadas que a cena das artes visuais brasileira já teve. Para Tom Zé, que fazia parte do movimento tropicalista, os maiores legados daquele ano estão na aproximação de duas vertentes importantes da sociedade e na luta de gênero. “O ex-revolucionário do setor estudantil se unindo à classe trabalhadora e a denúncia que levantou a lebre da situação da mulher”, elenca o músico. “Na posição tropicalista, o corpo estava exposto ao choque imediato e a reação foi obra instantânea do circuito elétrico que unia nossa mente ao mundo. Como a água que gira os braços da usina de força.”

Mas os desfechos não foram muito bons para 1968. Em Paris, o movimento terminou com a reeleição da direita e uma manifestação da classe média em favor de De Gaulle. Em Praga, tanques soviéticos fizeram o serviço completo. O legado, no entanto, perpassou o século 20. “No Brasil, a gente tinha uma ditadura militar, então aqui a rebeldia era bem direcionada, porque tinha um fato concreto, repressor. Mas em outros lugares, como na França, era uma questão de querer mudar as relações, principalmente, e uma luta pela liberdade, pela justiça”, explica Regina. “Se você olhar, parece que nada deu certo, mas esses movimentos todos abriram brechas para, mais tarde, as conquistas se realizarem. Isso deu origem ao movimento feminista, ao movimento pelos direitos civis, à quebra dos preconceitos, à liberdade. Essas conquistas vieram com a semente do que foi plantado ali e no começo dos anos 1960.”

Em Cravo vermelho, o escritor Virgílio Pedro Rigonatti aborda os fatos que marcaram 1968 por meio de dois personagens: um casal de namorados que se conhecem na escola e, ao chegar à faculdade, enfrentam os dilemas impostos pela ditadura militar. “A gente não sabia que o mundo estava mudando tão violentamente. A gente só teve a noção anos depois. Aquilo que eu sentia, transmiti aos personagens, que são ficcionais”, conta o autor. Ao olhar o Brasil de hoje, ele se preocupa com as radicalizações políticas e sugere aprender com o que a história ensinou. “Naquela altura, a radicalização entre o comunismo e a direita levou ao confronto. E hoje, a gente vê uma radicalização de postura. Não é como era nos anos 1960, mas a gente vê muitos defendendo a ditadura e outros, uma solução pela esquerda que hoje também não faz muita diferença porque a esquerda que chegou ao poder tornou-se conservadora e adotou os mesmos métodos que a direita sempre tomou.”

 

  
No Brasil, 100 mil foram às ruas para pedir o fim da ditadura em junho de 1968.  (foto Evandro Teixeira/AJB)
 
 
Brasília
 

No romance A noite da espera, Milton Hatoum evoca 1968 ao seguir a trajetória de um estudante na Brasília da ditadura. Os eventos daquele ano marcaram profundamente o escritor que, na época, morava na capital e estudava no CIEM. A noite da espera foi uma resposta ao trauma causado pelo movimento. “É uma ficção sobre o medo, a violência, a solidão, o amor, a perda”, explica. Para o autor, houve um crescimento da onda neoconservadora e neoliberal nas décadas seguintes e o que veio depois não mudou muito. “No Brasil, o autoritarismo, o mandonismo e a violência do Estado voltaram com muita força, mas existem desde a República Velha. Nossa democracia é apenas uma caricatura, ao contrário do Reino Unido, onde de fato existe uma cultura democrática”, lamenta.

 Quando pensa no que resta de 1968, Hatoum arrisca dizer que, talvez ,haja um pouco da rebeldia e do inconformismo dos jovens. Ele cita como exemplo as passeatas e protestos de estudantes contra a precariedade do ensino público e o fechamento das escolas. “Hoje, com o ressurgimento do autoritarismo e até do fascismo, os protestos e a indignação são formas de resistência”, diz. Se na Europa os problemas estão centrados na questão dos refugiados e no desemprego, o Brasil continua com problemas estruturais. “Os privilégios nos três poderes anulam qualquer tentativa séria de reforma da previdência. E as grandes empresas devedoras são perdoadas. Nossos liberais são de meia tigela. Parecem Brás Cubas, a personagem cínica de Machado, adepta do liberalismo` teórico´e cruel com os mais humildes. Também contra essa impostura vale a pena reacender a chama de Maio de 1968”, sugere.

 O que preocupa Regina Zappa é que as conquistas da década de 1960 não estão garantidas. “Como essa volta ao conservadorismo até em termos de comportamento, o que a gente tinha conquistado ao longo do tempo, a gente pode perder”, alerta. Para ela, as ideias libertárias que motivaram os protestos de 1968 enfrentam um recrudescimento do conservadorismo. “Em termos de uma política mais progressista, a gente estava vindo num caminho que foi abortado. E quando tem a ruptura democrática, abre-se espaço para qualquer tipo de coisa, principalmente o conservadorismo”, aponta. “Temos que estar atentos o tempo todo. Se a gente acha que avançou um degrau em termos civilizatórios e de conquistas sociais, pessoais e libertárias, não quer dizer que isso vai ser permanente, porque a história é cíclica. Se você se senta confortavelmente no sofá porque achou que chegou a algum lugar, é bom não ficar desatento, porque isso aí pode mudar.”

 
 
Musa de Godard, Anne Wiazemsky escreveu sobre os eventos de maio de 1968 em Paris. (foto: Christophe Simon)
 

Neta do Nobel de literatura François Mauriac e casada com o cineasta Jean-Luc Godard na década de 1960, a escritora Anne Wiazemsky viveu de perto os eventos que marcaram maio de 1968 em Paris. As manifestações e o movimento dos estudantes que paralisaram a cidade no mês mais agitado da segunda metade do século 20 ocupam boa parte de Um ano depois, livro no qual Anne conta, em primeira pessoa, um momento marcante de seu relacionamento com Godard. Lançado agora no Brasil pela editora Todavia, Um ano depois é um relato confessional e mergulha o leitor em cenário que também marcou a história do cinema. Então com 21 anos, a autora, morta em outubro de 2018, revela a própria ingenuidade diante do movimento e passa por acontecimentos emblemáticos de 1968.

 

Linha do tempo

JANEIRO

A Primavera de Praga

Após assumir em 1968 o governo da Tchecoslováquia, Alexander Dubcek promoveu reformas políticas e sociais que pretendiam humanizar a política autoritária do Partido Comunista. A liberdade de imprensa fazia parte do pacote, além de uma tentativa de distanciamento do bloco comunista. A ex-União Soviética viu as reformas como ameaça ao sistema e invadiu o país.

MARÇO

Calabouço

Cerca de 300 estudantes jantavam no restaurante universitário Calabouço, no Rio de Janeiro, quando a Polícia Militar invadiu o local e matou à queima roupa o estudante secundarista Edson Luís. O episódio já anunciava um recrudescimento da repressão que culminaria no AI5.

ABRIL

Martin Luther King

Ganhador do Nobel da Paz e líder do ativismo pelos direitos dos negros nos Estados Unidos, King foi assassinado por motivos até hoje não esclarecidos.

MAIO

Protestos em Paris

Os conflitos começaram em 2 de maio, quando estudantes da Universidade de Nanterre questionaram regras que separavam os homens das mulheres no ambiente universitário. Os enfrentamentos se espalharam pelas universidades de Paris e os estudantes montaram dezenas de barricadas pela cidade.

JUNHO

Passeata dos Cem Mil

O assassinato do estudante secundarista Edson Luís, em março, foi um dos motivos que levou milhares de estudantes, artistas e intelectuais às ruas do Rio de Janeiro em junho.

OUTUBRO

Ibiúna e Maria Antônia

O 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna, no interior de São Paulo, acabaria com cerca de mil estudantes presos. No mesmo mês, um enfrentamento entre estudantes da Universidade Mackenzi ligados ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e alunos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (PUC) resultou em uma morte e um incêndio

DEZEMBRO

AI 5

Emitido pelo então presidente Artur da Costa e Silva, o ato foi o mais severo da repressão militar e derrubou a constituição, permitiu o fechamento do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas e instituiu oficialmente a censura

 

Um ano depois
De Anne Wiazemski. Tradução: Julia da Rosa Simões. Todavia, 172 páginas. R$ 49,90

1968: eles só queriam mudar o mundo
De Regina Zappa e Ernesto Soto. Zahar, 320 páginas. R$ 64,90
 
Cravo vermelho
De Virgílio Pedro Rigonatti. Lereprazer, 296 páginas. R$ 36
 
 
Fonte: Nahima Maciel, Correio Braziliense, 28/05/2018
 
 
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