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Relatos reais de mulheres torturadas na ditadura inspiram espetáculo

  • Publicado: Quinta, 12 de Abril de 2018, 15h05
  • Última atualização em Quinta, 12 de Abril de 2018, 15h15

LEONARDO TORRES   -    12/04/201'8

       (Foto: Rodrigo Menezes)

Histórias de mulheres presas e torturadas durante a ditadura militar costuram o espetáculo “Solitárias”, que faz sua estreia nacional na sexta (13/4) no Sesc Tijuca. O teatro fica na mesma Rua Barão de Mesquita onde funcionava a antiga dependência do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna), órgão responsável pela repressão nos anos de chumbo. Em outras palavras, muitas das torturas relatadas na peça aconteciam a poucos passos do teatro, há mais de 40 anos. Isso dá um significado ainda maior ao espetáculo, que traz a atriz Carolina Caju (de “UMDOUM”) em cena. 

A peça é baseada no relatório final da Comissão da Verdade do Rio (CEV-RIO), publicado em 2015. O documento revela total desrespeito aos direitos humanos, politicamente silenciados por décadas. Autora do texto, Clarisse Zavros ficou muito impressionada com a violência e o sadismo das torturas apontadas nos depoimentos das vítimas. “Mas não somente isso. É assustador pensar que esses atos de tortura eram considerados legais e aconteciam em prédios oficiais e não nos ‘porões da ditadura’, como se costuma dizer. A semelhança entre passado e presente também é algo que impressiona. É uma dor muito grande perceber que a nossa história se repete de maneira escancarada”, diz a dramaturga.

Para quem já esqueceu, quando foi decretada a intervenção militar no Rio de Janeiro, em fevereiro, o general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, disse publicamente que os militares precisavam de “garantias” de que não enfrentariam “uma nova Comissão da Verdade” no futuro. Interprete como quiser. Em abril, novamente, Villas Bôas voltou a ser notícia ao comentar a prisão do ex-presidente Lula no Twitter: afirmou que o Exército não aceitava “impunidade” e que estava atento “às suas missões institucionais” – o que foi interpretado por muitos como uma ameaça de interferência. Pouco depois, o Exército emitiu comunicado, colocando-se de acordo com o comandante. Tempos sombrios. De novo? “Solitárias” busca incitar essas conexões. “Para mim, o maior desafio foi propor um texto que lidasse com a realidade de uma maneira ética, mas sem privar o espectador da possibilidade de tirar suas próprias conclusões. Não por acaso, o texto apresenta muitas perguntas sem respostas”, conta Zavros. O diretor Douglas Resende acredita que plateia vai ter o impacto de perceber que o suposto passado nunca teve fim.

 

(Foto: Rodrigo Menezes)

– As páginas da ditadura ainda não foram viradas. Ainda vivemos sob forte repressão do Estado e com consecutivas violações dos direitos civis. – ele diz – Eu sou de uma geração que não cresceu durante o período do regime militar. Quando eu estive na universidade os estudantes não eram reprimidos por seus posicionamentos políticos. Minha visão sobre a ditadura é jovem, é sempre em paralelo com minhas referências contemporâneas, com o atual momento político em que vivemos. Portanto o público pode esperar um novo olhar, uma nova forma de falar sobre esse tema tão forte e ainda presente no nosso país.

Tanto a dramaturga quanto o diretor buscam fugir de lugares comuns sobre a ditadura neste trabalho. “Existe um clichê no imaginário de peças teatrais sobre o tema de descontrole ou fetichização”, aponta Zavros. Buscando outro caminho, ela trabalhou com imagens poéticas despertadas pelo assunto, para além dos fatos concretos propriamente ditos: o silêncio e o som, a mudez e a voz. Para a montagem, o diretor se preocupou em não colocar a ditadura como um período sombrio do passado, sempre deixando aberta a ponte com o presente. “Desmistificar o assunto foi um ponto de partida para pensar toda a encenação”, Resende fala, “a proposta também se distancia de uma tentativa de representação das torturas descritas nos depoimentos das mulheres que foram presas e aposta em um distanciamento dos eventos de forma crítica e sarcástica”.

Fonte: Teatro em cena, 12/04/2018
Disponível em: http://teatroemcena.com.br/home/relatos-reais-de-mulheres-torturadas-na-ditadura-inspiram-espetaculo/
 

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