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Ruth Escobar morre aos 81

Atriz sofria de Alzheimer e faleceu nesta quinta-feira (5) no hospital 9 de julho, em São Paulo, onde estava internada há um mês

PUBLICADO EM 06/10/17 - 03h00
 

SÃO PAULO. Morreu, na quinta-feira (5), a atriz e produtora Ruth Escobar. Ruth sofria de Alzheimer e estava internada havia um mês no hospital 9 de Julho. Ela tinha 81 anos e deixa quatro filhos — um quinto já morreu. O velório foi realizado no teatro Ruth Escobar e o local do enterro não foi confirmado, mas deve acontecer às 11h desta sexta-feira (6).

Não foi apenas no teatro, nos mais de 30 espetáculos em que atuou, que Ruth sentiu-se autorizada a se desdobrar em inúmeras personagens. Longe das coxias, esta portuguesa nascida Maria Ruth dos Santos, em 31 de março de 1936, na cidade do Porto, foi deputada estadual em duas gestões, empresária, ativista política, líder feminista, autora de uma autobiografia lançada em 1987 e uma militante em tempo integral.

Escobar chegou ao Brasil aos 15 anos, em 1951 – as décadas seguintes que viveria por aqui ajudaram a atenuar, sem jamais eliminar, seu acento lusitano. No fim dos anos 50, já casada com o dramaturgo e filósofo Carlos Henrique Escobar, partiu para estudar na França.

Ao retornar, criou sua primeira companhia, o Novo Teatro, e convidou para suas primeiras produções o diretor italiano Alberto D’Aversa, que havia chegado a São Paulo em 1957 para dar aulas na Escola de Arte Dramática. As primeiras peças que D’Aversa dirigiu para Ruth e sua trupe foram “Mãe Coragem e Seus Filhos”, de Bertolt Brecht, em 1960, que se revelou um fracasso de bilheteria tão grande a ponto de comprometer o salário da equipe, e “Males da Juventude”, de Ferdinand Bruckner, no ano seguinte.

RESISTÊNCIA. O passo determinante para a consolidação do nome de Ruth como atriz e produtora se deu em 1964, com a criação do teatro que leva seu nome, no bairro da Bela Vista, região central de São Paulo. O teatro Ruth Escobar, um endereço que entraria para a história recente do Brasil tanto pela ousadia e ineditismo das produções ali apresentadas quanto por sua inclinação para polo de resistência à ditadura militar, foi inaugurado com um texto de Bertolt Brecht, “A Ópera dos Três Vinténs”, dirigida por José Renato.

Em julho de 1968, durante uma das apresentações da peça “Roda Viva”, de Chico Buarque, o teatro foi invadido por 20 integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que destruíram o cenário da peça, danificaram equipamentos e espancaram os atores.

A vida de Ruth não cabe em dez livros. No fim da década de 60, produziu – e protagonizou – alguns dos mais lendários espetáculos já encenados no país em qualquer época. Entre eles, “Cemitério de Automóveis”, de Fernando Arrabal, que estreou em setembro de 1968 em uma velha garagem na Rua 13 de Maio, e “O Balcão”, de Jean Genet, que entrou em cartaz em dezembro do ano seguinte.

Ao longo dos anos 70, Ruth colocou o Brasil na vanguarda teatral mundial com o Festival Internacional de Teatro, que, ao longo de oito edições permitiu ao público nacional tomar contato com a obra de encenadores do porte de Bob Wilson, Andrei Serban e Jerzy Grotowski.

Depois da terceira edição do festival, em 1981, candidatou-se a deputada estadual e foi eleita duas vezes (1983 e 1987). Acabou expulsa do seu partido, o PMDB, ao apoiar, em 1986, a candidatura do empresário Antonio Ermírio de Moraes ao governo do Estado de São Paulo pelo PTB.

No início dos anos 2000, recebeu o diagnóstico de que tinha o mal de Alzheimer. Aos poucos a atriz, cinco casamentos e mãe de cinco filhos, começou a se distanciar dos palcos e da vida pública. Ainda teve tempo de lançar, em maio de 2001, um dos seus espetáculos mais controversos, o musical “Os Lusíadas”, superprodução de R$ 2 milhões inspirada na obra do poeta português Luís de Camões.

Em 2011, o nome de Ruth ressurgiu no noticiário por um motivo preocupante, não por conta de algum novo projeto – e sim porque seu monumental acervo, incluindo prédios e material artístico, deteriorava-se vítima de abandono.

Iniciativa

Em 1964, Ruth circulou com um ônibus pela periferia de São Paulo com espetáculos como “A Pena e a Lei”, de Ariano Suassuna. A iniciativa foi chamada de Teatro Nacional Popular.

Repercussão

“Conheci Ruth Escobar e sua firme luta pelo teatro brasileiro. Em seus teatros vi coisas maravilhosas que me ajudaram a entender o mundo”.

Serginho Groisman, apresentador

“Ruth Escobar fez muito pelo teatro brasileiro. Cada festival nos tirava de uma ilha de provincianismo”.

Mika Lins, atriz

“Faz falta tua ousadia. As polêmicas que sempre gerou. Tua coragem pessoal desconcertante. Os teatros do mundo que nos mostrou. Um pouco de cada artista de teatro devemos a você”.

Celso Frateschi, ator e ex-secretário de Cultura de São Paulo

“Nunca foi santa. Mas sem mulheres como ela, não se constrói um país. Obrigado por tudo. Descanse em paz”.

Aimar Labaki, dramaturgo

“Fizemos boas coisas juntos – umas leituras de poesia abominadas pelos militares no poder, inclusive. E se estivesse viva e em condições – faz tempo que não estava – seria mais uma voz forte contra o retorno da censura”.

Claudio Willer, poeta

“Adeus, Ruth Escobar! Guerreira das artes, fez história com tantas coisas, entre elas ‘O Balcão’ – ironicamente, peça que enfrentava os tempos sombrios da ditadura militar; tempos parecidos com os atuais...”

Lufe Steffen, cineasta

“Ruth Escobar fez para o teatro o que ninguém neste país fez. Fora construir um belo Teatro, montou peças que são referências no Teatro Brasileiro. A Patricia, Inês, Rutinha e Nelsinho, meus sentimentos e a eterna gratidão de termos sido vizinhos por mais de 25 anos”.

Rosi Campos, atriz

Fonte: O Tempo, 06/10/2017

Disponível: http://www.otempo.com.br/divers%C3%A3o/magazine/ruth-escobar-morre-aos-81-1.1528289

 

 

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