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Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça

07.08.2017

Moacyr Oliveira Filho - Moa

 

 

Assustado com o grande número de pessoas que defendem a volta dos militares ao poder, decidi contar um pouco da minha experiência pessoal nos porões da ditadura, na esperança de que os que hoje pedem uma intervenção militar não sabem o que efetivamente aconteceu naquela época

 

Na semana passada, escrevi aqui sobre a investigação realizada pela Volkswagen, na Alemanha, confirmando a colaboração da sua filial brasileira com a ditadura militar em nosso país. Fiquei surpreso com a repercussão do texto, que teve 633 curtidas. E assustado com os comentários, em sua maioria, elogiosos à ditadura e aos seus crimes e ofensivos aos que lutaram contra ela.

Prefiro acreditar que esses comentários refletem o desconhecimento das pessoas sobre o que foi a ditadura militar e o que aconteceu nos porões dos seus órgãos de repressão. Imagino que esses comentaristas não viveram a ditadura nem sofreram as violências que ela cometeu indistintamente sobre qualquer pessoa que ousasse desafiá-la.

Por isso, resolvi contar um pouco da minha experiência pessoal, nos porões da ditadura, na esperança de que isso ajude os mais jovens a entender o que foi aquele período, conhecer os crimes cometidos e afastar essa ideia inaceitável de defender a volta dos militares ao poder.

Defender a volta da ditadura na democracia é fácil. Difícil era defender a democracia na ditadura.

Na noite do dia 8 de maio de 1972, por volta das 23 horas, fui preso por agentes do DOI-CODI do II Exército, na Rua Leopoldo Couto de Magalhães Junior, Itaim-Bibi, em São Paulo, há 500 metros da minha residência, onde morava com meus pais.

Eu tinha 19 anos e era um militante da base universitária do PCdoB na USP, sem contato com dirigentes do partido, sem conhecimento de aparelhos, sem participação em nenhuma ação armada. Minha militância limitava-se a participar de reuniões, onde se discutia os documentos partidários e a conjuntura política, de panfletagens e pichações contra a ditadura, de reuniões e assembleias do Centro Acadêmico e do Movimento Estudantil e de cobrir pontos semanais com um companheiro que dava assistência política à nossa base.

Não era um perigoso “subversivo” ou “terrorista”, como os militares classificavam os que lutavam contra a ditadura. Era apenas um jovem idealista, lutando por liberdade e democracia em nosso país.

Tinha pouca ou quase nenhuma informação a dar à repressão. Mas mesmo assim fui torturado durante 4 dias, com tapas, socos, chutes, “telefones”, choques, pau de arara e cadeira do dragão.

Ao chegar ao DOI-CODI, no prédio que hoje abriga a 36ª DP, na esquina das ruas Tutoia e Thomaz Carvalhal, no bairro do Paraíso, fui recebido por um agente baixo, forte, cabeludo, dedos grossos, que soube depois ser o policial civil Lourival Gaeta, que atendia pelo codinome de Mangabeira. Ele me pegou pelos cabelos e batendo minha cabeça na parede gritou: “Seu filho da puta, hoje eu ia dar uma trepada e você estragou minha noite. O negócio aqui é o seguinte: PCdoB. Conhece?”. Diante da minha resposta negativa, ele começou a me espancar com socos, murros, pontapés e “telefones”, dizendo: “Pois vai conhecer logo, logo”.

Fui levado para uma sala no primeiro andar, onde me mandaram tirar a roupa e sentar numa cadeira, colocada em frente a uma mesa, em cima da qual havia uma máquina de choque, a temida “pimentinha”. Mangabeira e outros dois agentes, ligaram os fios no meu corpo – boca, pênis, orelhas, mamilos e passaram horas me dando choques, perguntando sobre pontos, aparelhos, nomes de companheiros. Como não disse nada, até porque não conhecia nenhum aparelho, os choques, tapas, murros, “telefones” continuaram por várias horas.

Quatro horas depois, eles pararam e fui levado para solitária, a cela-forte, conhecida por X0, no térreo, pelo carcereiro Marechal, que antes de me colocar na cela e trancar a porta de ferro, mandou uma mulher que lá estava deitada num colchonete, com a porta aberta, provavelmente uma prostituta, ir embora. Certamente, era a trepada do Mangabeira.

Fiquei na cela-forte por 4 dias, saindo sempre para as sessões de tortura na mesma sala do primeiro andar, levando choques, tapas, socos, murros, pontapés e “telefones”.

Durante uma semana, minha mãe foi diariamente ao DOI-CODI atrás de informações sobre o meu paradeiro, e sempre negavam que eu estivesse preso ali. Ela era atendida pelo PM Dulcídio Wanderley Boschilla, conhecido juiz de futebol,  e uma vez foi recebida por um certo Dr. Tibiriçá, codinome do então major Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI. Só admitiram a minha prisão, uma semana depois.

No segundo dia, na mesma sala do primeiro andar, levaram o companheiro que me delatou para dizer que era melhor eu falar, porque tudo já havia caído, e eu falando meu sofrimento iria acabar. Nesse mesmo dia à noite, levaram a namorada desse companheiro, então com apenas 16 anos, para a sala de tortura e obrigaram-na a girar a manivela da máquina de choque com os fios amarrados no meu corpo, numa dupla tortura. Nela, obrigada a torturar um companheiro, e em mim, vítima de tortura por uma companheira.

No quarto dia, quando voltou a trabalhar a mesma equipe que me recepcionou, as torturas foram as mais violentas. Ao perceberem que, nesses 3 dias, a minha história ia mudando, os torturadores da equipe se enfureceram e me levaram, logo cedo, para a sala de tortura que ficava no térreo, ao lado da escada que dava acesso ao andar superior, onde fui submetido ao pau de arara e à cadeira do dragão.

Foi quando me dei por derrotado e decidi falar o pouco que sabia, admitindo minha militância, escrevendo uma confissão de próprio punho e identificando a foto de um companheiro que eu sabia que não estava em São Paulo e, portanto, não seria preso – Cilon Cunha Brum, que estava na Guerrilha do Araguaia, de onde nunca mais voltou.

E aí, as torturas pararam.

Essa era a lógica da tortura: derrotar o preso, subjugá-lo, abatê-lo moral e fisicamente, quebrar sua autoestima, fazê-lo sentir-se fraco, derrotado, acovardado. Para isso era preciso fazer o preso falar alguma coisa, dar alguma informação, por menor e mais irrelevante que fosse. Quando isso acontecia e os torturadores, auxiliados pela equipe de análise, se convenciam de que o preso não tinha mais nada a falar, as torturas paravam. Aquele preso não servia para mais nada. Já havia sido derrotado.

Nas semanas em que fiquei preso no DOI-CODI, algumas imagens ficaram guardadas para sempre na memória, como símbolos daquele antro de terror: o rádio ligado em alto volume, sinal de que alguém estava sendo torturado; o carcereiro balançando ruidosamente o molho de chaves das celas, sinal de que alguém iria ser levado para interrogatório; os gritos de dor de companheiros sendo torturados.

Em contrapartida, guardo comigo uma imagem que representa a união, o companheirismo e a solidariedade entre os presos. Sempre que alguém ia ser solto, deixava a cela ao som de um coral entoado pelos que ficavam: “Minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar, meu bem querer, se Deus quiser quando eu voltar do mar, um peixe bom eu vou trazer, meus companheiros também vão voltar, e a Deus do céu vamos agradecer”, uma canção de Dorival Caymmi. O que deixava os torturadores enfurecidos.

Cantar, aliás, era uma arma que nós, presos, usávamos para tentar manter o moral elevado e mostrar aos nossos algozes que estávamos firmes. Nos raros momentos de relativa tranquilidade, quando não havia novos presos e a tortura diminuía, fazíamos verdadeiras serenatas de nossas celas, cantando sambas, MPB e músicas revolucionárias. Uma cela de cada vez. Isso também deixava os torturadores ensandecidos.

Uma das cenas que mais me impressionaram durante minha passagem pelo DOI-CODI foi a presença da filha de Ustra, Patrícia, então uma criança de apenas 3 anos de idade, na cela feminina da carceragem do DOI-CODI. Por mais de uma vez lembro essa criança passando as tardes na cela das companheiras.

Quando a então deputada federal Bete Mendes identificou o coronel Ustra como adido militar da Embaixada do Brasil no Uruguai, no governo Sarney, contei essa história num artigo na extinta Última Hora de Brasília, onde eu trabalhava na época, intitulado Brinquedo Macabro.

Anos depois, o coronel Ustra publicou um livro – Rompendo o Silêncio – e deu a um dos capítulos o título de Um Brinquedo Macabro?, onde reproduz o meu artigo, confirmando a presença da sua filha na cela feminina do DOI-CODI, mas atribuindo esse fato a um “gesto humanitário” dele e de sua esposa, Joseíta Ustra. Reafirmo o que disse no artigo. A presença da pequena Patrícia, na cela feminina do DOI-CODI, no meio de presas, muitas delas recém-saídas da tortura, era mais uma terrível e macabra forma de tortura aplicada pelo então major Ustra às suas vítimas. Mais do que isso, revela o elevado grau de desumanidade do coronel Ust ra, que usava a própria filha, de apenas 3 anos de idade, como instrumento de tortura de presas políticas.

Carlos Alberto Brilhante Ustra, falecido em outubro de 2015, comandou o DOI-CODI do II Exército entre setembro de 1970 e janeiro de 1974, e é um dos maiores símbolos da tortura no Brasil. Sob o seu comando ocorreram, no DOI-CODI, ao menos 45 mortes e desaparecimentos de presos políticos. Ele teve participação direta em vários casos de prisão, detenção ilegal, tortura, execução, desaparecimento forçado e ocultação de cadáver, reconhecidos pela Comissão Nacional da Verdade.

Em 2008, Ustra se tornou o primeiro militar a ser declarado pela Justiça como responsável por casos de tortura praticados durante o regime militar e, em 2012, foi o primeiro agente da ditadura condenado a pagar indenização a parentes de uma vítima da repressão, no caso do jornalista Luiz Eduardo Merlino. O coronel recorreu à Justiça em ambos os casos. E nunca foi condenado. Morreu impune.

Estatísticas oficiais revelam que de julho de 1969 até maio de 1977, 2.541 pessoas foram presas pelo DOI-CODI, das quais 51 foram mortas; 914 foram encaminhadas para lá por outros órgãos, das quais 3 foram mortas; e outras 3.442 prestaram declarações e foram liberadas. Ou seja, nos oito anos em que funcionou ativamente como um dos principais aparelhos repressivos da ditadura, 6.897 pessoas passaram pelo DOI-CODI do II Exército, sendo que 54 não saíram de lá com vida.

E, com certeza, todas elas foram, de alguma forma, vítimas de violências, torturas e violações de direitos humanos. Em maior ou menor grau ou intensidade, mas todas torturadas.

Isso sem falar na censura, nas perseguições a estudantes e trabalhadores, nas intervenções em Sindicatos, Centros Acadêmicos, na UNE e na UBES, no fechamento do Congresso, na cassação de mandatos de parlamentares, nos exilados, no aniquilamento das garantias e liberdades individuais.

Por isso, lembrar o que aconteceu naquela época é uma forma de preservar a memória e a verdade e evitar que isso volte a se repetir.

Foi com esse espírito que fui um colaborador voluntário da Comissão Nacional da Verdade, ajudando a reconstituir a arquitetura original do DOI-CODI, descaracterizada por  reformas ao longo dos anos, e a identificar vários dos seus agentes, responsáveis por graves violações dos direitos humanos.

Lembrar, para que não se esqueça e para que nunca mais aconteça!

Fonte: Ultrajano, 07/08/2017

Disponível: http://www.ultrajano.com.br/single-post/2017/08/07/Para-que-n%C3%A3o-se-esque%C3%A7a-para-que-nunca-mais-aconte%C3%A7a

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