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Professor de História de Avaré relata prisão durante ditadura militar

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legenda: Alexandre Verpa Neto‍
 

Embora tenha sido mais visível em centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro, a repressão exercida pela Ditadura Militar (1964-1985) também deixou marcas em Avaré. O cenário de perseguições e desaparecimento de oponentes do regime, no entanto, passou praticamente despercebido porque a maioria da população estava alienada em relação ao que realmente acontecia.

É o que avalia o professor de História Alexandre Verpa Neto. Para exemplificar a tese, ele relembra o caso do médico avareense Boanerges de Sousa Massa, cuja família até hoje não sabe o paradeiro. Formado em medicina pela Universidade de São Paulo (USP), Massa se envolveu com organizações de esquerda que lutavam contra a ditadura na capital. “O mais impressionante é que pouquíssima gente tem conhecimento do fato de que Avaré tem um desaparecido político”, pondera.

Segundo o docente, Boanerges foi protagonista de um acontecimento cinematográfico. Após um confronto com a polícia durante um assalto a banco com o objetivo de levantar recursos para ações de guerrilha, um de seus companheiros foi levado para o Hospital das Clínicas gravemente ferido. “A ordem das autoridades ditatoriais era que o militante fosse deixado lá, sem qualquer atendimento, para morrer. No entanto, Boanerges entrou disfarçado no HC, operou o companheiro e conseguiu fugir”, relata Verpa.

Prisão- Em 1975, enquanto lecionava uma disciplina na Escola Estadual Coronel João Cruz, o professor recém-formado foi surpreendido por policiais que o arrancaram da sala de aula sem aviso prévio. No dia anterior, ele havia feito críticas ao regime militar. “Fui pego de surpreso, nem sabia o motivo. Só na delegacia, onde fiquei detido por algumas horas, tomei conhecimento de que havia sido delatado pelo pai de uma aluna. Não apanhei, não fui torturado, não me ameaçaram de morte, mas recebi uma reprimenda do delegado. “Restrinja-se aos compêndios escolares, professor”. E olha que já estávamos no processo de abertura política do governo Geisel. Realmente não havia liberdade”, analisa.

O seu caso, no entanto, não é isolado: outros dois professores avareenses também foram presos em situação semelhante.

Conservadorismo local-  Para Verpa uma característica local – além da vigência da ditadura – explica a truculência. “Avaré tem um conservadorismo exacerbado. O município é, por exemplo, um reduto malufista. As coisas parecem agora ter mudado um pouquinho, mas é ainda é vigente um conservadorismo além do limite. Então é óbvio que naquela época as pessoas apoiavam o regime militar”, explica.

Já no final da década de 90, quase duas décadas após o fim da ditadura, o traço conservador da sociedade avareense novamente bateria à porta do professor. “Eu dava aula de História na rede privada de ensino e abordei a desigual estrutura fundiária mantida no Brasil desde a Coroa Portuguesa. Tempos depois, a direção do colégio me alertou a ter cuidado com o que fosse dito em sala, uma vez que a União Democrática Ruralista (UDR) havia reclamado com a instituição”.

Embora o caso não tenha resultado em qualquer desdobramento, o docente disse em sua defesa que apenas havia abordado a história do Brasil, nada mais que isso. “Mas se vocês quiserem que eu conte a história da Chapeuzinho Vermelho, também posso fazer”, respondeu o professor à direção do colégio na ocasião.

Verpa se mostra otimista com o Brasil atual, mas não abre mão da cautela. “Estamos caminhando. Hoje temos uma democracia ampla. No entanto, as forças reacionárias ainda exercem uma influência muito grande e há muitos filhotes da ditadura nos diversos setores da sociedade, principalmente na política. Ainda não nos livramos deles”, finaliza. (Fonte: Jornal A Comarca.)

Fonte: Jornal A Bigorna, 05/07/2017

Disponível: https://www.jornalabigorna.com.br/page/noticia/professor-de-historia-de-avare-relata-prisao-durante-ditadura-militar

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